20/07/12

78 – Um conceito único de autocarro

Há alguns anos atrás (cinco, para ser exacto), existia uma linha que, podendo não ser a mais conhecida dos passageiros da STCP, seria, uma das linhas mais carismáticas que esta empresa tinha.            
Esta linha era a única que atravessava a cidade do Porto, de lés-a-lés, passando pela Baixa. Era também uma das linhas que ligava entre si o maior número de locais importantes da cidade, entre hospitais, faculdades, jardins e locais de comércio.E também era a linha que levava não só muita gente ao futebol (passava nas proximidades dos estádios das Antas e do Bessa) como também, e principalmente, levava muitas gerações de portuenses para as praias.
É precisamente desta linha que hoje iremos falar. Da linha 78 (Hospital de São João – Castelo do Queijo), uma das mais longas de toda a rede STCP (entre as décadas de setenta e de noventa do século XX) como era a mais longa dentro da cidade do Porto.

Mapa com o percurso do 78. O percurso a azul era o que se fazia de dia, enquanto que o percurso a preto era o nocturno. Retirado da versão antiga do site da STCP.

O começo
 Quem tem acesso aos livros e a toda a documentação relativa à história da STCP, saberá que os autocarros começaram a circular em Abril de 1948, com a linha C (Avenida dos Aliados – Viso). É desta linha que se fala essencialmente quando se fala da história dos autocarros desta empresa.         
Todavia, em Junho desse ano, a segunda  linha a ser inaugurada (no dia um de Junho de 1948) seria a linha D (Avenida dos Aliados – Antas). Saía da Avenida dos Aliados e seguia para esta última localidade através da Avenida Fernão de Magalhães, num percurso igual ao que hoje é assegurado pela linha 305.
 Artigo do jornal "O Comércio do Porto", de Junho de 1948, sobre a nova linha D. 

O primeiro autocarro a efectuar a linha D, no artigo d´"O Comércio do Porto, de Junho de 1948.
E em dia de S. João desse mesmo ano (vinte e quatro de Junho), o então Serviço de Transportes Colectivos do Porto inaugurava a linha A (Avenida dos Aliados – Foz) que servia as áreas residenciais do Campo Alegre, da Avenida Marechal Gomes da Costa e da própria Foz. Tudo áreas que já eram (e continuam a ser) consideradas das mais elegantes e selectas do burgo. 
 Aviso do STCP, a anunciar a nova linha A. Retirado do Jornal "O Comércio do Porto", de Junho de 1948. 

Novos tempos   
Durante vinte e seis anos, estas duas linhas coexistiram separadamente. A D levava as pessoas da Avenida dos Aliados até ás áreas residenciais das Antas (inicialmente) e ao bairro Costa Cabral e á Areosa (mais tarde, quando a linha foi prolongada até ao Hospital de S. João), sendo o percurso feito na então designada Via Nordeste (actual Via Fernão Magalhães). A linha A levava os passageiros ás ditas áreas selectas da Foz, como referimos anteriormente. Mas em vinte e seis anos, muita coisa muda: a cidade do Porto expande-se cada vez mais para fora do centro, são abertas novas vias de trânsito dentro da cidade, constroem-se centenas de milhares de casas (incluindo os famosos bairros sociais) para não só albergarem as pessoas vindas do interior do nosso País, como também os habitantes das famosas “ilhas”, que proliferavam no centro do Porto.
E é nesses novos tempos que surge então a necessidade da empresa se adaptar ás exigências de um público que, na altura se tornava cada vez mais numeroso e que exigia cada vez mais recursos. Daí que a empresa se tenha decidido em unir as linhas A e D, passando a identificar a nova linha com o número 78. Esta decisão foi tomada e anunciada pública no dia dezanove de Abril de 1974, e posta em prática no dia vinte e dois. Pouquíssimos dias antes da célebre revolução dos cravos, portanto… 

Noticia da fusão das linhas A e D a sua transformação no 78, noticia no jornal "O Primeiro de Janeiro", de 19 de Abril de 1974.  

É nesse período pós vinte e cinco de Abril (décadas de setenta e oitenta) que a linha 78 começa a ser operada da forma como muitos passageiros se recordam – com os famosos autocarros Leyland Atlantean de dois pisos, já com a pintura laranja. Posso mesmo dizer que gerações inteiras de portuenses (e não só) cresceram a andar nesta linha – que tanto levava as pessoas para os seus locais de trabalho ou estudo, como levava as pessoas para a praia, no Verão. 


 Duas fotografias de autocarros Leyland Atlantean ao serviço na linha 78, no Castelo do Queijo e na Praça da Liberdade (nesta última foto, o autocarro está à direita). Fotos de Christopher Leach
   
Muitos também se recordarão também das paragens para se meter gasóleo (em plena viagem com passageiros!) ou então das voltas que os autocarros teriam que fazer dentro da Praça D.João I que certamente não eram fáceis para os motoristas… ou então dos dias em que muitos utilizavam os bancos para exprimirem os sentimentos ou outros conseguiam viagens “gratuitas” agarrando-se aos autocarros, mas do lado de fora. 


 Mais duas fotos de Cristopher Leach, retratando precisamente as voltas que os autocarros da linha 78 davam na Praça D. João I e o abastecimento de gasóleo.  

Anos 90 e o fim 
Com o progressivo abate dos Leyland Atlantean de dois pisos nos finais da década de oitenta e princípios da década de noventa do século XX, a STCP seria forçada a utilizar autocarros Standard para os substituir, até porque na altura a empresa já tinha linhas que necessitavam dos autocarros articulados que entretanto adquirira. Assim, e pelo menos até 1998, esta linha tinha ao seu serviço os autocarros da série 15XX-16XX (os primeiros Mercedes-Benz ao serviço da STCP, carroçados pela CAMO), cumprindo novas exigências a nível de conforto (estes autocarros foram considerados mais silenciosos, menos poluentes e mais confortáveis que os seus antecessores). Todavia, entre 1998 e 2000 os autocarros Volvo B10R (série 800-900) asseguraram esta linha, que chegava a contar com 16 autocarros em circulação durante o dia.
E em 2000, a STCP começa a operar novos autocarros a Diesel, com a numeração 2100. A grande maioria foi carroçada pela Salvador Caetano com chassis Mercedes-Benz, embora não fosse raro ver alguns autocarros integralmente construídos por esta empresa germânica, adquiridos em 2004. 

Duas fotos com os 21XX da STCP a fazer a linha 78, um na Rua Julio Dinis e outra no Castelo do Queijo. Segunda foto da autoria de Leandro Ferreira, da Transportes XXI.


Duas fotos com os 218X da STCP a fazer a linha 78, um no Hospital de São João e outro na Avenida dos Aliados. 

Também era frequente ver-se autocarros da série 1700 (os primeiros autocarros de piso rebaixado da empresa) e, no Verão, para responder á procura existente (o 78 servia muita gente que procurava as praias do Porto) os articulados da série 1000 também davam uma ajuda. 
  

 Autocarro da série 17XX a fazerem a linha 78, sendo a primeira no largo do Viriato e a segunda no Castelo do Queijo. A segunda foto é da autoria de Leandro Ferreira, da Transportes XXI. 

 O que é curioso é ver que esta foto data de 1982... mas que viria a tornar-se realidade cerca de vinte anos depois. Nos primeiros anos da década do século XXI os autocarros articulados Volvo B10M prestaram serviço na linha 78, durante o Verão. Só não foi exactamente este modelo de autocarro a ser utilizado... Retirada do grupo do Facebook "Eu andei no 78!"

 Autocarro 1011 a descer a rua dos Clérigos. Como se vê, foi tirada em pleno Verão. Foto de João Cunha, Transportes XXI
Como se tratava de uma linha muito extensa, e passava por locais onde o trânsito se processava com dificuldade, não era raro ver muitos autocarros com viagens “encurtadas”: faziam por exemplo trajectos somente para o Mercado da Foz, Praça da Liberdade, Santa Justa… o que não raro provocava protestos da parte dos muitos passageiros que continuaram a utilizar este serviço. É que na verdade esta linha contava com um intervalo de dez minutos por dia que era preciso respeitar e que nem sempre era suficiente para transportar todos aqueles que queriam viajar nestes autocarros – como por exemplo, os estudantes das faculdades situadas nos pólos da Asprela e Campo Alegre que iam e vinham daqueles locais. 
Todavia, com a expansão do Metro e após diversos estudos, a STCP decide implementar a rede de autocarros que hoje está em vigor, sacrificando então muitas das linhas de autocarro existentes. E o 78 foi uma delas. No dia 31 de Dezembro de 2006 acabava-se assim uma das linhas mais carismáticas do Porto, que serviu como eixo de ligação entre o Hospital de São João, as Antas, a Baixa do Porto e a Foz. Acabava-se assim uma linha que serviu muitas gerações de portuenses (e não só) para as mais diversas ocupações. No dia a seguir sucediam-lhe as linhas 305 (Hospital de São João – Cordoaria) e a linha 203 (Marquês de Pombal – Castelo do Queijo). Uma espécie de regresso ao passado…
 
Autocarro 1203 da STCP a fazer a linha 305, no Campo 24 de Agosto. 
Porém, e como esta linha de autocarro se transformou numa instituição que perdura na memória de muitos passageiros, é frequente encontrar-se nas redes sociais grupos dedicados ao 78 (“Eu Andei no 78 é um deles) ou então verem-se vídeos dedicados a esta linha. O 78 foi uma linha de autocarro que marcou uma cidade. Mas também foi uma linha com história, pois resultou da fusão da 2ª e da 3ª linha de autocarros a serem inauguradas no Porto.


 Para a elaboração deste artigo, utilizaram-se as seguinte fontes: 
- Jornal o Comércio do Porto, Junho de 1948;
- PT/ADPRT/EMP/STCP > Recortes de Jornais de 1972 a 1974 > Arquivo Distrital do Porto;
- Site Transportes XXI;
- Blog de Christopher Leach;
- Grupo do Facebook "Eu Andei no 78!"
-
Site da STCP





 

3 comentários:

  1. Quando as linhas de autocarro deixaram de ser designadas por letras passaram a ser por 3 algarismos e só mais tarde por dois, assim após o "A" veio o "178" e finalmente o "78".

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  2. quem me dera voltar a esses tempos.Saudades

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